O musical Os Miseráveis é dramático e maravilhosamente bem produzido. Traz boas atuações e um cenário impecável juntamente com algumas canções marcantes e bem feitas. Numa história sobre pobreza e revolução, o filme certamente chama atenção e nos põe para pensar sobre algumas questões sociais. Quer dizer, se você conseguir chegar ao final do filme.

Concorreu ao Oscar de Melhor Filme esse ano, mas saiu com as estatuetas de Melhor Atriz Coadjuvante, Melhor Maquiagem e Melhor Mixagem de Som. Um filme que se pretende grandioso desde o começo (a primeira cena é simplesmente mirabolantemente milionária) acaba sendo só grande. E como é grande…
Os Miseráveis é a versão cinematográfica do musical de mesmo nome da Broadway, que é por sua vez uma adaptação do romance do escritor francês Victor Hugo. A história é basicamente essa: Jean Valjean (Hugh Jackman) terminou sua pena e depois de nove anos de trabalhos forçados é agora um homem livre. A questão é que um ex-prisioneiro não consegue emprego e Jean é atirado à miséria. No entanto, após um encontro em que um mão amiga lhe é estendida, Jean decide fazer um novo começo: ele destroi sua identidade de Jean Valjean e começa a vida do zero.

Mas é claro que alguém sabe do passado de Jean. E esse alguém é Javert (Russel Crowe), um inspetor da polícia. Javert leva ao pé da letra todas as leis e está decidido a provar que uma vez criminoso, sempre criminoso. Javert passa a perseguir Jean por onde quer que o último vá, determinado a fazer da vida do último um inferno. Mas Jean, determinado a ser um homem melhor, vai ajudando um monte de gente no caminho enquanto foge de Javert.
Interessante? Eu diria que bastante. O problema é que tudo isso é cantado ao longo de três horas. E quando eu digo cantado, não quero dizer cantado no estilo Moulin Rouge. Tudo em Os Miseráveis é cantado e quando eu digo tudo, é tudo mesmo. Qualquer fala, qualquer diálogo, tudo é cantado. Depois de um tempo, a coisa começa a ficar chata. Há quem diga que o público brasileiro não é acostumado a musicais e depois de ver Os Miseráveis eu tive certeza disso: o cinema inteiro (e a sala estava lotada) estava tremendo na cadeira depois de duas horas de cantoria. Eu já estava vendo a hora que alguém teria um acesso ou coisa parecida.
Fui assistir o filme com uma amiga e ela postou a seguinte frase no Facebook sobre o evento:
O filme foi tão longo, tão longo, que Melissa e eu saímos do cinema mais velhas, a ponto de ir pra casa e jogar palavras cruzadas.
E foi absolutamente verdade. O filme não acabava nunca e eu, que normalmente sou paciente com musicais, já estava me sentindo extremamente cansada. Sim, o filme envelhece e vai perdendo a qualidade à medida que a história avança.

As primeiras uma hora e meia são primorosas: inclusive, Anne Hathaway como Fantine é de cortar o coração. As cenas com ela são simplesmente impecáveis e ela canta de verdade. O auge do filme acaba sendo mesmo a interpretação de “I Dreamed a Dream” que só de lembrar me faz começar a chorar. Inclusive, eu chorei horrores no cinema com essa cena. É uma daquelas coisas viscerais que te pegam de jeito: o Oscar de Hathaway foi mais que merecido.
Mas quando os anos passam na história, a coisa vai ficando estranha. Pra mim, o link com a revolução francesa foi bizarro. Nada daquilo realmente me convenceu. Aquele monte de rapazes cantando sobre o povo e bla bla bla me entendiou e a conexão deles com a história do Jean Valjean foi bizarro (mal feito mesmo). Além disso, o casal Marius e Cosette é irritante, chato, improvável e esquisito (tudo só piorado pelos agudos de Amanda Seyfried, que apesar de normalmente cantar bem, me irritou no filme).

No entanto, o que realmente matou o filme pra mim foi a interpretação do Russel Crowe. Além de não cantar nada, o Javert dele foi tão raso, mas tão raso, que eu não consegui sentir nenhuma emoção pelo personagem, só uma sensação azeda de “Que cara patético!”. A cara dele era sempre a mesma e o final do personagem foi tão WTF e sem aprofundamento que não causou efeito nenhum em mim.
Era até estranho ver Crowe e Jackman na mesma cena. Afinal, quem poderia imaginar que o Volverine de X-Man fosse tudo aquilo de ator enquanto Crowe, um cara que ganhou um Oscar, fosse fazer uma cara tão ridícula o filme inteiro. Inclusive, é sinistro pensar que esse filme tem uma atuação tão brilhante quanto a de Anne Hathaway e uma coisa tão ruim quanto Russel Crowe como Javert. Coisas do cinema.

As últimas uma hora e meia de filme foram dolorosas: a revolução foi cansativa, os personagens foram chatos e o casalzinho, irritante. Chegou um ponto que as cenas que deveriam ser muito impactantes (como a morte de crianças e de várias pessoas) ficaram cômicos. É como se o filme desse um tiro que saísse pela culatra: tanta grandiosidade, tanta cantoria e aquele apelo grandioso e no final o espectador realmente não se importa porque está a fim de sair da sala de cinema e ir fazer qualquer coisa, qualquer coisa, nem que seja jogar palavras cruzadas.
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Ah, o que achei maravilhoso foi o fato de que os atores cantaram tudo ao vivo no set, ou seja, a captação do som não foi feita no estúdio. Isso é de tirar o chapéu, realmente.
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