Quando a Amazon Prime Video decidiu cancelar a série A Roda do Tempo depois de 3 temporadas, eu tive que lidar com o fato de que teria que ler 14 volumes de quase mil páginas cada pra saber o final dessa história.

Óbvio que passei pelas fases do luto:
- Negação: “Não é possível que essa série foi cancelada. Tem que ter uma petição online ou alguma coisa assim. Não vou ler os livros.”
- Raiva: “Mas que inferno! A série de TV era a melhor coisa do mundo? Não! Tinha um ritmo inconsistente? Tinha! Mas era uma série de fantasia muito boa com atores legais (Rosamund Pike S2) e a terceira temporada tava pegando o jeito. Teve episódios incríveis! Mas era de se esperar da Amazon… E por que a caralha dos livros tem que ser desse tamanho, pelamor.”
- Barganha: “Talvez eu leia os livros a partir do quarto volume, só pra saber o final da história. Talvez eu pegue um resumo online e leia só os livros mais legais.”
- Depressão: “Não vou ler. Não vou saber. Aceito não saber o final dessa história, a vida continua e é isso. Toda série que eu gosto é cancelada mesmo.”
- Aceitação: Abre o primeiro livro no Kindle porque ninguém é obrigada a segurar um calhamaço de 782 páginas.
Houve um tempo na minha adolescência que eu amava sagas longas. Fui aquela pessoa que leu O Senhor dos Anéis umas quatro vezes, sem contar a releitura de partes específicas. Mas chega uma época na vida de todo fã de fantasia e ficção científica que a gente finalmente entende que às vezes menos é mais. Que não precisa detalhar toda a viagem da cidadezinha pequena até o destino místico com todos os detalhes de comida, estalagem, perigos repetitivos e conversas aleatórias (sim, já comecei a falar de O Olho do Mundo). Concisão muitas vezes é uma virtude literária.

Com muita concentração, invoquei a Melissa de 20 anos atrás pra ler alta fantasia extensa e comecei.
Eu já sabia que a série de TV era bem diferente dos livros, mas o tanto me surpreendeu. A ordem dos acontecimentos, a forma como os personagens são introduzidos, os contextos, tudo diverge bastante do texto do Robert Jordan e digo com tranquilidade que a série foi mais legal.
Sei que vou ter que me desviar das pedradas, mas foi melhor sim, pelo menos na relação 1º livro-1ª temporada, porque ela foi concisa. Pegou o espírito da coisa (alterando talvez significativamente o final, o que talvez não tenha sido tão interessante) e na maior parte das vezes mostrou o que realmente importava: Moiraine é a melhor personagem, Nynaeve é insuportável, Rand e um toco de bambu dá na mesma e o worldbuilding é sensacional com sistemas políticos, religiosos, mágicos, históricos e sociais bem complexos.
O trabalho do Robert Jordan é realmente admirável. Não só pelo comprometimento de escrever uma série tão extensa e não ter grandes hiatos ao longo dos anos (diferente de uma certa galera por aí), mas por realmente criar um mundo que parece vivo desde a primeira página. O mundo de A Roda do Tempo não é só rico em explicações e descrições; tem também aquele feeling de lugar vivido, sabe? Como se nós leitoras estivéssemos ali espiando uma fatia de tempo.
Por outro lado, é impossível, como uma leitora de 2025, não achar que o Jordan é derivativo de Tolkien. Muito. A série de TV tentou se desvencilhar disso ao máximo e conseguiu em grande parte, mas O Olho do Mundo me incomodou demais. A estrutura é idêntica:
- Jovens ingênuos saem de sua terra idílica após a visita de alguém poderoso que sabe sobre um mal terrível que está acordando e apenas um deles pode resolver a questão;
- O grupo entra em uma cidade amaldiçoada que ninguém entra há séculos porque os outros caminhos estão interditados/vigiados e têm que sair de lá numa corrida frenética;
- A comitiva é perseguida por uma figura encapuzada de preto que é um lacaio do grande mal;
- Um exército de bestas malignas está atrás do grupo;
- Um dos personagens tem uma conexão doentia com um objeto maligno;
- Uma figura paterna se sacrifica para salvar os jovens ingênuos;
- O grupo se separa, mas suas missões estão conectadas;
Ah, mas o próprio Robert Jordan falou que escreveu a primeira parte de O Olho do Mundo para se espelhar no começo de A Sociedade do Anel. Não é espelho, minha gente, é derivativo. Os melhores momentos do livro acontecem justamente quando a narrativa se distancia de Tolkien. É nessa horas que essa sociedade complexa brilha, que os conflitos se tornam mais criativos e as relações mais envolventes.
O foco narrativo fecha a maior parte do tempo em Rand, claramente o escolhido fodão, dragão renascido, etc. Infelizmente, achei o personagem ainda mais genérico que na série de TV. Acho que isso deixou a leitura um pouco mais pesarosa pra mim. Apenas sua atuação no final, no Olho do Mundo propriamente dito, foi mais interessante. Espero que ele seja mais desenvolvido no segundo livro.
Porque eu vou sim ler o segundo (daqui a algum tempo rs). Gostei muito do primeiro livro nos levar para esse grande final cliché do herói derrotando o vilão e sermos surpreendidos. Estou genuinamente curiosa para saber mais sobre esse mundo.
Inclusive, o ponto alto de O Olho do Mundo pra mim foi essa mitologia em torno dessa Roda do Mundo, que tece o Grande Padrão, de uma forma cíclica ao longo das eras. Nada é realmente novo; tudo é uma grande repetição do que veio antes, apenas em um nível diferente. Os personagens são agentes desse padrão, fazendo nós mais ou menos importantes nessa grande teia.

Tem um quê pós-apocalítico no mundo do Robert Jordan. Há uma urgência em sobreviver, em construir em cima daquilo que um dia foi, mas ninguém sabe ao certo o que era. Até mesmo as Aes Sedai (mulheres poderosas que conseguem se conectar ao Poder Único e canalizá-lo) tateiam no escuro, com poucas informações e visões conflitantes entre si sobre o que deve ser feito.
Não é à toa que Moiraine se destaca como uma personagem muito instigante. Apesar do caos, ela tem uma fé inabalável não nesse escolhido místico, dragão renascido, mas no fato de que o Grande Padrão está se movimentando e dando os sinais necessários para que as trevas sejam derrotadas. É preciso confiar esse padrão e, principalmente, agir. Moiraine age com consciência. Isso faz dela uma personagem muito cativante. Não é à toa que a série de TV a colocou como protagonista na primeira temporada.

Se eu recomendo O Olho do Mundo? Não sei. Para quem gosta de alta fantasia, é um clássico, mas é um investimento de tempo considerável que compensa pelo worldbuilding e não pela jornada dos protagonistas. Pelo menos não nesse primeiro volume. Acho que é o tipo de livro mais legal pra ler com outras pessoas: clube do livro, leitura coletiva, combinar de discutir com amigues, essas coisas. Porque aí dá pra xingar e se divertir com a jornada de leitura em si.

Publicado originalmente em 1990. A publicação brasileira, de 2013, é da Intrínseca e foi traduzida pelo Fábio Fernandes.
Esse diário de leitura foi escrito por uma humana.
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