Eu sou daquelas pessoas que lê vários livros ao mesmo tempo. Isso porque gosto de ter vários assuntos na minha cabeça e pelo menos um livro de ficção e outro de não-ficção pra alternar antes de dormir.
Tem o fato também de que dizem que faz bem pra cabeça ler várias coisas ao mesmo tempo. Não sei se é verdade, mas eu acho melhor que sudoku.
Mas existe um aspecto da leitura que pra mim sempre foi inegociável: compartilhar minhas ideias e conversar com as pessoas que se interessam ou leram os mesmos livros do que eu. Aparentemente ser professora de literatura não é suficiente e eu preciso de escrever sobre livros na internet.
Então honrando minhas origens nos blogs literários dos anos 2000, inauguro aqui meu Diário de Leitura nesse blog, que por sua vez está ligado à coluna (é coluna que fala? não sei, sou millennial) Queridinhos do Mês lá do Instagram.
Então bora pro que eu li.

No comecinho do mês, quis uma leitura que coubesse em uma tarde preguiçosa na rede. Escolhi a novela Auxiliar de Limpeza Sobrenatural, do Lucas Cabrero, e foi uma escolha certeira! A história foca em Duda, um jovem cujo subemprego é nada mais nada menos do que limpar a sujeira feita por vampiros e lobisomens depois de uma noite de… caçada? Janta? Reunião? Assim como Duda, é melhor não perguntar.

Gostei muito da proposta de vermos o mundo sobrenatural a partir de alguém que não é um escolhido super especial que vai salvar o mundo e sim de um reles auxiliar de limpeza. Para conhecer como um mundo funciona, a melhor coisa é ir conversar justamente com quem tem menos poderes. E certamente Duda e Otávio, seu colega de serviço, têm muito a dizer sobre as desigualdades.
Mesmo com os questionamentos importantes de classe, a narrativa tem seu toque divertido justamente pela situação absurda na qual Duda é colocado: ele limpou uma coisa muito estranha e isso pode ser a prova de um crime. Temos uma reflexão interessante sobre condições de trabalho, corrupção e até onde podemos realmente denunciar. Ah, e tem protagonismo trans!

Também no começo do mês, finalizei oficialmente a leitura de O Sexo Desobediente: a revolução do prazer feminino, da Lua Menezes, que foi minha leitura escolhida de não-ficção. Eu devorei esse livro! O grande trunfo dele é trazer uma pesquisa de fôlego sobre mulheres, sexo e desejo de uma forma descomplicada numa leitura deliciosa. Não dá vontade de parar de ler (nem de comentar!).

O livro é dividido em duas partes: O Corpo Desobediente e O Sexo Desobediente. A primeira foca em como o corpo das mulheres é tratado no patriarcado, as formas de controle e submissão, bem como a ciência e a psicanálise contribuíram para que esse corpo fosse ora objetificado ora apagado. Já a segunda parte se dedica a uma discussão sobre a construção do desejo sexual, o imaginário sexual, erotismo e formas de se relacionar a partir da perspectiva de ser uma mulher em um mundo patriarcal.
O livro não fica apenas no relato e crítica da exploração das mulheres, no entanto. Lua advoga por uma revolução do prazer, uma forma de desobedecermos a fim de efetivamente vivermos a vida, desfrutarmos dela, e não apenas sobrevivermos. Sem deixar de lado as questões sociais e culturais, o livro traz um verdadeiro manifesto de como viver o prazer é uma forma de desobediência.
Achei simplesmente incrível. Inclusive, segue aí definição de prazer da autora:
prazer se refere ao deleite de um sentimento ou uma sensação que afirma a vida, que acorda e acende o corpo, que relembra a força, a potência e a beleza que já existem, que dá sentido para o presente e esperança para o futuro, que não elimina a dor, mas fortalece para vivê-la. Nesse sentido, prazer não é apenas uma forma de sentir, é também uma forma de saber – o corpo, o mundo, a vida. (p. 20-21)
Essa e várias outras passagens (Kindle todinho marcado) alugaram um triplex na minha cabeça. É daqueles livros pra sair comentando com todo mundo e já comprar exemplares para dar de presente.

Esse mês finalmente terminei a saga Trono de Vidro. Estou atrasada nesse bonde, mas digo que gostei muito desse marco icônico da romantasia. Ainda vou fazer considerações mais detalhadas dessa série como um todo, mas aqui vou falar da leitura do último volume, Reino de Cinzas.

Finais de saga são sempre complicados. Ainda mais de sagas longas em que temos tempo para nos apegar aos personagens e fazer nossas próprias teorias sobre o que deveria acontecer ao mesmo tempo em que queremos ser surpreendidos. Mas esse final entregou tudo.
Teve aquela dose certa de dificuldade e esperança, dor e triunfo. Além de não buscar soluções fáceis para problemas complexos. Tenho ódio de certos casais? Tenho. Mas acho que isso também faz parte da experiência de leitura. O crescimento da Aelin como personagem é muito bem feito e eu que comecei a série com preguiça dela, terminei chorando e gritando “Vai e arrasa, nossa rainha!”
É uma série que exige muito porque são seis volumes e alguns deles com mais de 800 páginas. Mas para quem é mega fã de fantasia, esse universo é muito completíssimo, as intrigas são bem arquitetadas e os personagens são inesquecíveis (alguns eu queria até esquecer que existem, mas tudo bem rs).

O que ficou de fora da lista dos queridinhos foi The Cinderella Complex: Women’s Hidden Fear of Independence, minha segunda leitura de não-ficção. Foi difícil seguir O Sexo Desobediente e essa foi uma leitura um tanto travada que me deixou com uma sensação contraditória em vários momentos. A autora se repete muito, o livro poderia ser menor, e analisar questões culturais mais amplas.

A premissa de The Cinderella Complex, de Collette Dowling, é de que mesmo após a revolução feminista dos anos 60, as mulheres ainda se sentiam presas ao casamento como solução para seus problemas, muitas vezes se escondendo atrás desse compromisso para não assumiram riscos em suas carreiras e exposição pública. Elas seriam vítimas do Complexo de Cinderella, um mecanismo psicológico em que mulheres esperam ser salvas por um Príncipe Encantado ao invés de assumir as rédeas das próprias vidas.
A autora vai usar psicanálise e dados de pesquisas sociais para defender sua proposta, mas as explicações do Complexo de Cinderella foram bem simplistas. Isso é compreensível até certo ponto, visto que o livro é dos anos 80, mas ainda me incomodou. A socialização das mulheres é muito complexa e existem fatores culturais e sociais específicos que reforçam e premiam esse comportamento. A solução individual que a autora propõe, de acordar pra vida e dar a volta por cima, é bastante ingênua. Inclusive, a visão que é apresentada dos homens como confiantes e bem-resolvidos já é extremamente datada e não desce.
O que não invalida essa proposta, pois podemos sim observar esse processo do Complexo de Cinderella em muitas mulheres, inclusive nas representações de mulheres no cinema e no audiovisual (algo que a autora não trabalhou no livro e que acredito ser essencial). Seria muito interessante ter uma revisão dessa proposta de análise quarenta anos depois e discutir as implicações que temos dessa lógica com a ascensão de movimentos conservadores como as tradwives.
Mas, o livro por si só, foi ok.

Algumas leituras de setembro ficaram abertas e devo terminar no próximo mês. Foram elas Ordem, de Hugh Howey, e a releitura de Wuthering Heights, de Emily Bronte. As impressões ficam para outubro.
E vocês? O que leram nesse último mês?

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