Todo fã sabe que sempre houve algo de muito podre no reino das Runaways. Em Edgeplay, documentário sobre a história da pioneira all-girl rock band estado-unidense, Sandy West diz que as garotas sofriam todo tipo de abuso por parte do produtor, Kim Fowley. Se havia abuso sexual? Sandy termina dizendo que não é ela quem deve ser indagada sobre o assunto.

E não era mesmo. Faz algumas semanas que Jackie Fuchs (mais conhecida como Jackie Fox, baixista da banda) revelou para o jornalista Jason Cherkis um episódio chocante: na noite de ano novo de 1975, ela foi drogada e estuprada por Kim Fowley num quarto lotado de pessoas. O ato em si já é revoltante, mas mais absurdo ainda é que o mundo não tem tratado as mulheres de forma diferente nesses últimos 40 anos.
Muita gente tem me cobrado para comentar do assunto, uma vez que fiz uma série de posts sobre a banda, traduzindo informações até então inéditas em português. Confesso que tive algumas dificuldades para escrever esse post. A primeira, de ordem totalmente pessoal, é relativa a minha falta de tempo em finais de bimestre. A segunda é porque o assunto foi exaustivamente comentado na blogosfera em inglês (e coisas nem sempre boas e relevantes) e a última é de que eu precisava de certo tempo para digerir uma história tão horrível.
Pesquisando tanto sobre a banda nos últimos anos, sempre houveram indícios de que algo realmente traumático tinha acontecido, apesar de não ser possível dizer com quem. Cherie Currie (vocalista) era alvo de Fowley no quesito assédio moral, sofrendo humilhações constantes em gravações e ensaios. Jackie Fox (baixista) levava a pior de constantes reprimendas por parte de suas colegas de banda e sua saída da turnê do Japão envolveu uma tentativa de suicídio. Sandy West (baterista) se envolveu com drogas pesadas, crime e posteriormente uma depressão severa. Vickie Blue (baixista pós-1977) tinha ataques de esquizofrenia que eram escondidos pelo resto da banda e produção. Joan Jett (guitarrista e vocalista) prefere viver num mundo paralelo onde essas coisas nunca aconteceram enquanto Lita Ford (guitarrista) prefere esquecer.
A questão é qualquer um que se atreva a tentar entender o que foi as Runaways irá sempre se deparar com um clima pesado, com essa “coisa não dita”, de uma violência e densidade grandes. Não que tudo que as outras membros sofreram não seja sério (assédio moral, negligência médica, bullying, isso tudo é coisa séria), mas o estupro de Jackie Fox é simplesmente chocante. E pior: ele explica todas as reticências de Edgeplay, o buraco no livro de Cherie Currie e a ficção completa que é o filme The Runaways.
Kim Fowley era conhecido na época por aliciar adolescentes. E agora várias pessoas têm vindo à tona para delatar seus malfeitos. Mas não adianta, Fowley morreu em janeiro desse ano e não está mais aqui para pagar pelo que fez. É triste saber que o homem morreu como um ícone extravagante da música e que todo mundo passou por cima de suas histórias de abuso durante décadas.
Jackie Fox demorou 40 anos para conseguir lidar com seu trauma e contar ao público o que realmente aconteceu naquela noite, quando tinha apenas 16 anos. Segundo ela, Fowley a drogou com qualudes, deitou-a numa cama num quarto cheio e estuprou-a na frente de um bando de adolescentes bêbados e drogados. De acordo com Jackie, ninguém fez nada.

O episódio já tinha corrido o risco de vir à tona anos antes, quando Cherie Currie lançou sua biografia. Na época o capítulo “A aula de sexo de Kim Fowley” contava sobre o produtor estuprando uma groupie em frente a toda a banda. O texto, que depois de certo ponto envolvia a dita groupie gostando do que estava acontecendo, foi retirado do livro depois que Jackie Fox processou Cherie Currie por calúnia. Segundo Fox na época, nada disso tinha acontecido.
E não aconteceu mesmo. A história que lemos no artigo do Huffington Post não tem nenhuma groupie, nem prazer nenhum. Ao invés disso é um relato assustador de como produtores abusam de mulheres na indústria musical enquanto o resto do mundo assiste pacificamente, sem fazer nada. Semanas seguintes, Jackie foi ensaiar com a banda e todo mundo agiu como se nada tivesse acontecido. Inclusive ela mesma, envolta em culpa e medo.
Ano passado a cantora Kesha veio a público com um processo contra seu produtor, Dr Luke, contando sua história de drogas e estupro, não muito diferente da de Jackie Fox. Kesha, assim como Jackie, teve medo de denunciar na época, como muitas vítimas de abuso sexual. O maior medo é de as pessoas não acreditarem nelas e sim nos homens poderosos (e criminosos).
Infelizmente, essa é a realidade. Depois da história devastadora de Jackie, suas ex-colegas de banda, que, segundo ela, foram testemunhas do estupro, não corroboraram sua história. Joan Jett e Cherie Currie negaram terem estado naquele quarto, mesmo que Jackie, no artigo do Huffington Post, tenha dito que não culpa ninguém pelo aconteceu e usa até mesmo um termo clínico, o Bystander Effect, para justificar por que quando um crime é perpetrado em frente a muitas testemunhas, nenhuma delas se coloca para ajudar a vítima. (Entenda um pouco do Bystander Effect aqui.)
Obviamente que Jackie Fox recebeu apoio. Segundo ela em sua página no Facebook, sua história fez com que centenas de mulheres tivessem coragem de revelar os próprios abusos que sofreram. Kari Krome (compositora) e Vicki Blue vieram se posicionar ao lado de Jackie, revelando as consequências daquela cena horrível de vioência em 1975: Krome relatou seu trauma com o que vira e os abusos sexuais que também sofreu de Fowley; Blue contou histórias perturbadoras de como o estupro de Jackie era uma piada constante quando estava na banda.
As negativas de Joan Jett e Cherie Currie, no entanto, não são apenas decepcionantes, mas também significativas. Sendo as figuras mais proeminentes ligadas à imagem das Runaways na mídia, a negativa delas desvalida a história de Jackie. Quando elas dizem “não vi nada” ou “não foi bem assim”, elas estão dizendo nas entrelinhas que é okay um produtor abusar de uma garota de 16 semi-consciente, que talvez a garota não tivesse tão inconsciente assim, que ninguém viu o que aconteceu, que talvez a garota não saiba exatamente o que está dizendo. NÃO! Temos que parar de duvidar de vítimas de abuso sexual. A culpa nunca é da vítima!
Vamos parar de sermos todos parte de um imenso Bystander Effect! Temos que mudar essa cultura doente em nossa sociedade em que normalizamos violência sexual e não fazemos nada. Em que ouvimos estupradores, mas duvidamos das vítimas. Temos que agir. E o primeiro passo é acreditar na vítima e ouvir o que ela tem a dizer. São 40 anos desde o estupro de Jackie Fox, mas continuamos agindo da mesma forma. Estamos fazendo as coisas do jeito errado a tempo demais.
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